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exames pré-câncer

Morre mulher que seria mais uma vítima da fraude de exames no RS

Laboratório responsável pelos exames pré-câncer na Rede Municipal de Pelotas foi acusado de não analisar amostras e emitir resultados falsos

Autor: R7
Emanuele com o marido. Ela descobriu que tinha câncer em estágio avançado. (Foto: Reprodução/Facebook)
Emanuele com o marido. Ela descobriu que tinha câncer em estágio avançado. (Foto: Reprodução/Facebook)

Foi enterrada neste sábado (11), no Cemitério São Francisco de Paula, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a dona de casa Emanuele Machado da Silva, de 34 anos. Ela pode ser mais uma vítima da possível fraude dos exames pré-câncer da rede municipal de saúde.

Abalado, o marido de Emanuele, o motorista Altemir Notti, preferiu não dar entrevista, mas confirmou que a esposa sempre recebeu os exames feitos na rede pública municipal com resultado normal. Quando ela descobriu o câncer, no ano passado, a doença já estava em estágio avançado.

Outras mulheres descobriram câncer em estado avançado

Outras mulheres que costumam fazer consultas ginecológicas na rede pública de saúde de Pelotas também descobriram que estavam com câncer de colo de útero em estágio avançado depois de receberem exames que apontavam situação normal.

Uma delas é Ana Maria Nobre, de 39 anos, que recebeu mais de uma vez resultados que, mais tarde, descobriu estarem errados. Há nove anos a ginecologista do Centro de Especialidades de Pelotas percebeu uma ferida no útero da auxiliar de serviços gerais. A partir de então, ela começou a fazer acompanhamento anual com consultas na mesma unidade de saúde e exames pré-câncer pelo SUS. Durante todo este tempo, nenhum exame apontou a possibilidade de tumor.

Ana Maria com o marido, Marcel, e a filha Marina Manoela, de 9 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

O R7 teve acesso aos últimos resultados, emitidos pelo laboratório SEG. Na amostra coletada no dia 22 de fevereiro de 2017, a conclusão é de que o material estava “dentro dos limites da normalidade”.

Como sentia cólicas muito fortes e tinha sangramentos cada vez mais frequentes, Ana Maria foi encaminhada para Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas. Lá, uma biópsia feita em agosto de 2017 identificou o câncer de colo de útero em estágio avançado.

Depois de começar o tratamento, em abril deste ano, Ana Maria fez um novo exame, desta vez na Sociedade Portuguesa de Beneficiência, também em Pelotas, pelo SUS, para acompanhamento. O resultado, mais uma vez emitido pelo laboratório SEG, atestou que Ana Maria tinha o útero saudável.

“Eu já estava em tratamento, não teria que ter dado que eu estava com câncer? Alguma coisa teria que aparecer nesse exame, mas deu normal, como se eu nunca tivesse tido nada”, questiona Ana Maria.

Depois de meses de quimioterapia, radioterapia e braquiterapia, na próxima segunda-feira (13) ela vai fazer uma ressonância magnética para saber se está curada. Nervosa, ela conta que o fim de semana vai ser de muita ansiedade: “Eu fico ansiosa porque eu fiz o tratamento todo, não tenho mais o sangramento, mas ainda tenho um pouco de dor. Penso muito na minha filha, quero saber se está tudo bem”.

Ana Maria pretende buscar reparação na justiça. De acordo com a advogada Jaqueline Machado, a intenção é processar o laboratório e a prefeitura. Para a advogada, a prefeitura foi omissa ao deixar de investigar as denúncias feitas em 2017 e é também responsável pela negligência do laboratório que lhe representava.

“O dano é explícito. Mesmo fazendo o papanicolau, mulheres como Ana, receberam resultado negativo, enquanto uma lesão vegetativa crescia ao longo do tempo no útero. O resultado é que foram impedidas, por conta de um laudo com erro, de curar sua doença na fase inicial, passando por quimioterapia, radioterapia e outros tratamentos menos eficazes em razão disso”, explica Jaqueline.

Exames podem ter sido fraudados nos últimos quatro anos

A denúncia foi feita no ano passado, mas só veio à público em julho deste ano. Médicos e enfermeiros da UBS (Unidade Básica de Saúde) Bom Jesus, na cidade gaúcha, que processavam a coleta de exame de papanicloau, o exame capaz de detectar câncer de colo de útero, perceberam uma redução muito grande no número de casos da doença. Entre janeiro de 2014 e junho de 2017 nenhuma mulher que fez o exame teve qualquer tipo de alteração identificada.

Uma tabela de exames da mesma unidade de saúde mostrou que antes desse período 44 resultados divulgados pelo mesmo laboratório, apontaram câncer. A suspeita é que os exames estejam sendo analisados por amostragem pelo laboratório contratado para fazer o serviço para toda a rede municipal, o SEG - Serviço Especializado de Ginecologia. De acordo com a denúncia, mesmo pacientes com lesões aparentes recebiam resultados de exames "normais".

Durante a primeira reunião, a CPI dos Exames definiu os documentos que pretende ter acesso. (Foto: Flickr/Câmara de Vereadores de Pelotas)

CPI escolhe relator

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Câmara de Vereadores que vai investigar as denúncias de fraude se reuniu oficialmente pela primeira vez na última quarta-feira (8). Dos 11 vereadores que participam, dois faltaram: Ademar Ornel (DEM) e Antônio Peres (PSB).

Durante a reunião, os vereadores escolheram o relator da CPI. Com seis votos, o eleito foi o vereador Eneias Clarindo (PSDB), que faz parte da base do governo municipal e é do mesmo partido da prefeita Paula Mascarenhas (PSDB).

O presidente da CPI, vereador Marcos Ferreira (PT), acredita que o relator ser do mesmo partido da prefeita não deve atrapalhar as investigações. “Acho que não compromete, desde que os parlamentares cumpram o seu papel, que é o de buscar esclarecer os fatos”, diz.

O relator Eneias Clarindo acredita que o fato de ser do mesmo partido da gestão municipal aumenta a responsabilidade. Segundo o vereador, ele está “engajado para que tenhamos um Plano de Trabalho aprovado pelos integrantes da comissão e um cronograma para dar uma dinâmica nos trabalhos”.

A primeira ação prática da CPI foi encaminhar para a Secretaria de Saúde a lista de documentos que pretende ter acesso: a lista de pacientes que fizeram o exame pré-câncer na rede municipal de saúde entre 2014 e 2018, a lista de mulheres que foram diagnosticadas ou morreram com câncer de colo de útero na cidade no mesmo período e a cópia do contrato firmado entre a prefeitura e o laboratório SEG.

A segunda reunião da CPI está marcada para a próxima quarta-feira (15).

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