Curitiba

Cigarro, álcool e HPV aumentam risco de câncer de cabeça e pescoço

Os tumores do câncer de cabeça e pescoço manifestam-se em lesões na boca, na faringe, na laringe e na tireoide

Evitar os principais fatores de risco, como o cigarro e o álcool, são a mais importante forma de prevenção (Foto: Pixabay)

A prevenção ao tabaco, a bebidas alcoólicas e ao papilomavírus (HPV) faz parte do alerta do julho verde, mês em que são reforçadas as campanhas contra o câncer de cabeça e pescoço. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que mais de 10 mil pessoas tenham morrido de câncer de laringe e cavidade bucal em 2015, de acordo com o levantamento mais recente.

Os tumores do câncer de cabeça e pescoço manifestam-se em lesões na boca, na faringe, na laringe e na tireoide. Não são classificados nessa modalidade de câncer os tumores no cérebro e nos olhos. Segundo Luiz Paulo Kowalski, diretor do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do Hospital A.C. Camargo, a automedicação e a falta de diagnóstico correto fazem com que de 70% a 80% dos pacientes cheguem ao médico com a doença em estado avançado.

Os sintomas do câncer incluem lesões brancas ou vermelhas, feridas, caroços, incômodo para engolir, rouquidão, dor e desconforto, com duração maior que duas semanas. “São sintomas que se confundem com doenças comuns. No caso da doença comum, em duas semanas os sintomas desaparecem, com ou sem tratamento. O câncer vai se tornando cada vez pior, os sintomas só se agravam. Aí deve despertar a atenção, 15 dias é o ponto chave”, esclarece o médico.

No caso de doença avançada, os sintomas são dor, sangramento, perda de dentes e perda de peso. O diagnóstico precoce traz mais chances de cura ao paciente. Há 20 anos, a taxa média de cura era 50%. Atualmente, com o aumento do diagnóstico precoce e os tratamentos mais modernos, o índice subiu para 65% a 70%. Os tumores de tireoides têm ainda mais sucesso, com taxa de cura superior a 90%.

A taxa de incidência apurada no país este ano pelo Inca mostra que homens são os mais afetados por esse tipo de câncer. Para o câncer de laringe, foram 6.360 novos casos de homens e 990 casos em mulheres. O câncer da cavidade oral afetou 11.140 pacientes masculinos e 4.350 mulheres.

Prevenção

Evitar os principais fatores de risco, como o cigarro, são a mais importante forma de prevenção. Segundo o médico, os diversos componentes químicos da combustão do tabaco, com forte potencial cancerígeno, afetam a boca, a garganta e a laringe. “As pessoas que fumam um maço por dia, por 20 anos, têm risco de cinco a dez vezes maior que a pessoa que nunca fumou. Se beber, aumenta de 60 a 80 vezes esse risco”, adverte.

A ingestão de bebidas alcoólicas é outro fator prejudicial. “O álcool é um solvente que facilita a penetração dos agentes cancerígenos na mucosa. O indivíduo que bebe muito, se alimenta mal e não tem cuidado com higiene oral, aumenta a proliferação de bactérias, que podem produzir infecções crônicas”, explica.

O terceiro fator de risco é o HPV, que pode ser transmitido para a boca por meio de sexo oral ou até pelo beijo. A incidência do HPV alterou o perfil do paciente, que antes era, em sua maioria, pessoas entre 55 e 60 anos. Com o vírus, a faixa etária diminuiu para 30 a 40 anos, predominante até entre pessoas que não fumam ou bebem. Segundo o médico, outras questões como dieta pobre em frutas e verduras também aumentam os riscos.

Tratamento

A cirurgia ou a radioterapia podem ser o tratamento nos estágios iniciais. Com o avanço do câncer, a quimioterapia ou a combinação das terapias também passam a ser indicadas. Kowalski destaca que a cirurgia, nos tempos atuais, deixaram de ter caráter mutilador. “Temos mídia assistida, laser, robótica e técnicas mais refinadas de reconstrução. Hoje, conseguimos retirar os tumores sem deixar sequelas significativas para o paciente, o sucesso do tratamento melhorou muito”, destaca.

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CFM discute redução da idade mínima para cirurgia de mudança de sexo

O Conselho Federal de Medicina considera reduzir de 21 para 18 anos a idade mínima exigida para o procedimento

A mudança da idade, ainda em análise, está sendo avaliada por uma comissão formada pelo Conselho Federal de Medicina (Foto: Reprodução)

O Conselho Federal de Medicina (CFM) discute a redução da idade mínima para a cirurgia de mudança de sexo. A proposta é de que o procedimento possa ser feito a partir dos 18 anos e não aos 21, como determina a regra atual. A mudança, ainda em análise por uma comissão formada pelo CFM, é apoiada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). "Se a maioridade é de 18 anos, por que esperar mais três anos para permitir a cirurgia?", questiona a presidente da Antra, Keila Simpson.

Keila defende que a partir de 18 anos transexuais tenham também facilitado o acesso a hormônios, essenciais para a transformação. O acesso precoce, argumenta, reduz o risco de que jovens recorram a clínicas clandestinas para o uso de silicone. "Hoje é tudo complicado, é preciso facilitar o acesso", avalia.

A presidente da Antra diz ser longa a fila de espera tanto para cirurgias quanto para o tratamento com hormônios. "Isso precisa mudar." Ela sugere que a terapia, hoje restrita a centros especializados, possa ser feita também em unidades básicas de saúde.

As regras do Conselho Federal de Medicina constam numa resolução de 2010. "Há tempos pedimos a mudança, para que a redação não seja medicalizada. Essa aproximação com o CFM aponta um horizonte mais promissor para discussões mais amplas sobre identidade de gênero", completa a presidente.

O CFM observa que nenhum ponto ainda está definido. A minuta da resolução deverá ser concluída no fim deste mês e submetida ao plenário do colegiado no início do próximo semestre. Para preparar o texto, o CFM consultou representantes de organizações não governamentais além de integrantes do Ministério da Saúde.

Atualmente 5 centros no País estão habilitados para fazer a cirurgia de mudança de sexo pelo Sistema Único de Saúde. O procedimento, no entanto, não é feito de forma rápida. Pessoas interessadas em realizar a mudança precisam passar por uma série de preparativos, que incluem o uso de hormônios. A histerectomia pode ser feita tanto para homens quanto para mulheres trans. Não há um protocolo específico.

O Ministério da Saúde não informou o tempo médio de espera para a realização da cirurgia. Keila, no entanto, afirma que o problema maior atualmente é com homens trans. "A fila é grande, é preciso ter mais agilidade", defende.

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Pela primeira vez, vacina protege contra gonorreia, diz estudo

Foi uma vacina contra meningite B que contribuiu para isso; os resultados fornecem um novo caminho para o desenvolvimento de uma vacina específica contra a gonorreia

De acordo com os autores da pesquisa, é a primeira vez que uma vacina apresenta alguma proteção contra a gonorreia (Foto: Venilton Küchler, Fotos Públicas)

A aplicação em massa de uma vacina contra meningite B na Nova Zelândia reduziu em mais de 30% o risco de contrair gonorreia entre as pessoas que foram imunizadas, de acordo com um novo estudo publicado nesta segunda-feira, 10, na revista científica The Lancet.

De acordo com os autores da pesquisa, é a primeira vez que uma vacina apresenta alguma proteção contra a gonorreia e os resultados fornecem um novo caminho para o desenvolvimento de uma vacina específica contra a doença.

Algumas linhagens da bactéria da gonorreia estão cada vez mais resistentes aos antibióticos disponíveis, tornando o desenvolvimento de uma vacina contra a doença uma prioridade global de saúde, segundo os autores do artigo. Até agora, depois de mais de 100 anos de pesquisas, todos os esforços para desenvolver uma vacina contra a gonorreia fracassaram.

No estudo, os cientistas analisaram os dados de uma campanha realizada entre 2004 e 2006, na qual cerca de um milhão de pessoas - o equivalente a 81% da população neozelandesa com menos de 20 anos - foram imunizadas com MeNZB, uma vacina de vesícula da membrana externa (OMV, na sigla em inglês) contra a meningite B.

De acordo com a autora principal do estudo, Helen Petousis-Harris, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), embora as duas doenças sejam muito diferentes em termos de sintomas e modo de transmissão, há uma coincidência genética de 80% a 90% entre as bactérias Neisseria gonorrhoeae e Neisseria meningitidis, o que resulta em um mecanismo de proteção cruzada.

"Nossa descoberta fornece evidências experimentais e uma prova de princípio de que a vacina OMV para meningococos do grupo B pode oferecer uma proteção cruzada moderada contra a gonorreia. Essa é a primeira vez que uma vacina mostra qualquer tipo de proteção contra essa doença", disse Helen.

"Até agora, ainda permanece desconhecido o mecanismo por trás dessa resposta imune que verificamos, mas nossa descoberta poderá ajudar a desenvolver futuras vacinas que possam proteger tanto contra meningite como contra gonorreia", afirmou a cientista.

No novo estudo, os cientistas analisaram os dados 14.730 casos indivíduos de 15 a 30 anos de idade, vacinados ou não, sendo que 1.241 haviam sido diagnosticados com gonorreia, 12.487 com clamídia e 1.002 com ambas as doenças.

Entre os que haviam sido vacinados, a probabilidade de contrair gonorreia foi de 41%, enquanto entre os não vacinados foi de 51%. Levando em conta fatores como etnia, condição social, área geográfica e gênero, os cientistas concluíram que ter recebido previamente a vacina MeNZB reduziu a incidência de gonorreia em aproximadamente 31%.

Saúde pública

Segundo os autores do novo estudo, se o efeito for confirmado com outras vacinas semelhantes atualmente disponíveis contra a meningite, administrá-la em adolescentes poderia resultar em um declínio considerável da gonorreia, cuja bactéria está cada vez mais resistente.

Estudos anteriores apontam que uma vacina com 30% de eficácia poderia reduzir a prevalência da gonorreia em mais de 30% dentro de 15 anos, de acordo com outro dos autores do novo estudo, Steven Black, do Hospital Infantil de Cincinnati (Estados Unidos).

"A potencial capacidade de uma vacina OMV contra meningococos do grupo B para fornecer uma proteção contra a gonorreia, mesmo moderada, poderia trazer um benefício de saúde pública substancial, levando em conta a prevalência da gonorreia e a crescente resistência a antibióticos", disse Black.

Segundo Black, a vacina MeNZB, desenvolvida para controlar uma epidemia de meningite, não está mais disponível, mas os antígenos OMV utilizados em sua fórmula - e que os cientistas acreditam ter provocado uma resposta imunológica contra a gonorreia - foram incluídos em outras vacinas desenvolvidas mais recentemente, como a 4CMenB, que está disponível em diversos países como Brasil, Estados Unidos, Canadá, Asutrália e Reino Unido, com o nome comercial Bexsero.

"Se a vacina 4CMenB, atualmente disponível em vários países, mostrar efeito semelhante aos da vacina MeNZB, administrá-la em programas de imunização de adolescentes poderia resultar no declínio da gonorreia", afirmou Black.

Os autores alertam que, por causa da variabilidade das diferentes linhagens das bactérias da gonorreia e da meningite, o efeito da vacina pode variar e que a coinfecção de gonorreia e clamídia pode reduzir ligeiramente a eficácia da vacina.

Negligência

Segundo os autores do estudo, há aproximadamente 78 milhões de casos anuais de gonorreia no mundo. Um número cada vez maior de linhagens da bactéria da gonorreia está desenvolvendo resistência a todas as drogas recomendadas para o tratamento. Sem tratamento, a gonorreia pode levar a complicações como doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica (fora do útero) e infertilidade, além de facilitar a transmissão do vírus HIV.

O novo estudo foi publicado em conjunto com uma recomendação da The Lancet Infectious Diseases, lançada no domingo, 9, no Congresso Mundial de DST e HIV, no Rio de Janeiro. O autor principal do relatório, Christopher Fairley, do Centro de Saúde Sexual de Melbourne (Austrália), afirma que as DSTs estão sendo negligenciadas globalmente.

"Os tomadores de decisão precisam ser convencidos de que o investimento em estratégias clínicas e de saúde pública podem melhorar o controle das DSTs, mas basear-se apenas na redução das práticas sexuais arriscadas de uma população não será suficiente e é preciso mais pesquisa em tratamentos biomédicos. O desenvolvimento de vacinas contra a gonorreia, cada vez mais resistente às drogas, é provavelmente a única solução sustentável para controlar essas infecções", disse Fairley.

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