Curitiba

Desigualdade de renda no Brasil não caiu entre 2001 e 2015, revela estudo

O estudo classificou a manutenção da desigualdade no Brasil como “chocante”, principalmente se comparada com outros países desenvolvidos

Desigualdade de renda no Brasil aumentou nos últimos anos. (Foto: Ilustrativa/Wikimedia Commons)

*Do R7

O crescimento da renda da população mais pobre no Brasil nos últimos 15 anos foi insuficiente para reduzir a desigualdade. Segundo estudo divulgado nesta semana pela equipe do economista Thomas Piketty, famoso por propor a taxação dos mais ricos para reduzir as disparidades na distribuição de renda, a maior parte do crescimento econômico neste século foi apropriada pelos 10% mais ricos da população.

De acordo com o estudo, conduzido pelo World Wealth and Income Database, instituto codirigido por Piketty, a fatia da renda nacional dessa parcela da população passou de 54,3% para 55,3% de 2001 a 2015. No mesmo período, a participação da renda dos 50% mais pobres também subiu 1 ponto percentual, passando de 11,3% para 12,3%. A renda nacional total cresceu 18,3% no período analisado, mas 60,7% desses ganhos foram apropriados pelos 10% mais ricos, contra 17,6% das camadas menos favorecidas.

A expansão foi feita à custa da faixa intermediária de 40% da população, cuja participação na renda nacional caiu de 34,4% para 32,4% de 2001 a 2015. De acordo com o estudo, a queda se deve ao fato de que essa camada da população não se beneficiou diretamente das políticas sociais e trabalhistas dos últimos anos nem pôde tirar proveito dos ganhos de capital (como lucros, dividendos, renda de imóveis e aplicações financeiras), restritos aos mais ricos.

“Ao capturar pouco ou nenhuma parte da distribuição da renda de capital e ao não capturar muitos dos frutos da política social diretamente, a faixa intermediária ‘espremida’ poderia ser um produto das elites que a quer botar em competição com a faixa inferior [de renda]”, destacou o estudo, assinado pelo economista Marc Morgan.

O estudo classificou a manutenção da desigualdade no Brasil como “chocante”, principalmente se comparada com outros países desenvolvidos. “É digno de nota que a renda média dos 90% mais pobres no Brasil é comparável à dos 20% mais pobres na França, o que apenas expressa a extensão da distorção na renda no Brasil e a falta de uma vasta classe média”, ressalta o levantamento. Em contrapartida, o 1% mais rico no Brasil ganha mais que o 1% mais rico no país europeu: US$ 541 mil aqui, contra US$ 450 mil a US$ 500 mil na França.

Metodologia

O levantamento exclui transferências de renda. Considerando o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada, a participação dos mais pobres teria encerrado 2015 em 14%, mas a evolução da renda dos 10% mais ricos permaneceria inalterada. No entanto, o salário mínimo, as aposentadorias e pensões e o seguro-desemprego estão incluídos no cálculo.

Segundo o World Wealth and Income Database, as transferências sociais foram retiradas do levantamento para facilitar a análise da estrutura da economia. Essa medida, conforme a equipe responsável pelo estudo, permite estimar quanto da renda nacional vem do capital e quanto vem do trabalho.

Para chegar à distribuição da renda nacional, os autores usaram dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que analisa o padrão de vida e a renda das famílias mais pobres. Os dados sobre a parcela mais rica da população vieram de informações sobre a Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física, enviados pela Receita Federal com a preservação do sigilo fiscal dos contribuintes.

Para acrescentar a participação do capital e as rendas não tributáveis, o estudo usou as Contas Econômicas Integradas, de 2000 a 2014, e as Contas Nacionais Trimestrais do IBGE de 2015. Juntando as três bases de dados, os economistas elaboraram a série histórica dos últimos 15 anos da renda nacional com a participação de cada faixa de renda da população.

Dividendos

A inclusão das contas do IBGE permitiu aos pesquisadores estimar os impactos sobre a economia da isenção de Imposto de Renda sobre lucros e dividendos, em vigor desde 1995. De acordo com o estudo, a desigualdade na renda do trabalho (de quem ganha salários) diminuiu de 2001 a 2015, mas esse efeito pode ser mascarado por profissionais autônomos que recorrem a instrumentos como participação nos lucros e distribuição de dividendos para pagarem menos impostos.

“Num contexto em que lucros distribuídos são isentos de Imposto de Renda, enquanto as rendas mais altas do trabalho são taxadas com a alíquota máxima de 27,5%, esse tipo de comportamento não pode ser descartado, especialmente como parece ser comum entre os brasileiros envolvidos em atividades autônomas”, destacou o estudo.

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Receita libera consulta ao quarto lote de restituição do Imposto de Renda

Também serão liberadas para consulta restituições residuais dos exercícios de 2008 a 2016

A Receita Federal liberou hoje a consulta ao quarto lote de restituição do Imposto de Renda Pessoa Física. (Foto: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas)

*Da Agência Brasil

A consulta ao quarto lote de restituição do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2017 está disponível a partir das 9h de hoje (8). O lote contempla 2,257 milhões de contribuintes, totalizando a liberação de mais de R$ 2,7 bilhões.

Também serão liberadas para consulta restituições residuais dos exercícios de 2008 a 2016. No total dos lotes, será liberado crédito bancário para 2,357 milhões de contribuintes, no dia 15 de setembro. Do total de R$ 3 bilhões, R$ 179,180 milhões referem-se a depósitos para contribuintes com preferência para receber: 40.429 idosos e 5.026 com alguma deficiência física ou mental ou moléstia grave.

Para saber se teve a declaração liberada, o contribuinte deverá acessar a página da Receita na internet, ou ligar para o Receitafone (146). Na consulta à página da Receita, serviço e-CAC, é possível acessar o extrato da declaração e ver se há inconsistências de dados identificadas pelo processamento. Nesta hipótese, o contribuinte pode avaliar as inconsistências e fazer a autorregularização, mediante entrega de declaração retificadora.

A Receita disponibiliza, ainda, aplicativo para tablets e smartphones que facilita a consulta às declarações do IRPF e situação cadastral no CPF. Com ele, será possível consultar diretamente nas bases da Receita Federal informações sobre liberação das restituições do IRPF e a situação cadastral de uma inscrição no CPF.

A restituição ficará disponível no banco durante um ano. Se o contribuinte não fizer o resgate nesse prazo, deverá requerê-la por meio da internet, mediante o Formulário Eletrônico – Pedido de Pagamento de Restituição, ou diretamente no e-CAC, no serviço Extrato do Processamento da DIRPF.

Caso o valor não seja creditado, o contribuinte poderá contatar pessoalmente qualquer agência do BB ou ligar para a Central de Atendimento por meio dos telefones 4004-0001 (capitais), 0800-729-0001 (demais localidades) e 0800-729-0088 (telefone especial exclusivo para deficientes auditivos) para agendar o crédito em conta-corrente ou poupança, em seu nome, em qualquer banco.

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A poupança mudou: Saiba onde aplicar seu dinheirinho extra

Especialistas avaliam aplicações na poupança, Renda Fixa e Tesouro Direto

Especialistas recomendam avaliar custos extras das aplicações. (Foto: Ilustrativa/Getty Images)

*Do R7

Com a perda da rentabilidade da poupança após a queda da taxa básica de juros ao patamar de 8,25% ao ano, outros fundos se tronam mais atrativos para os pequenos investidores. Ainda assim, aqueles com taxas de administração elevadas seguem em desvantagem na comparação com a caderneta.

Na opinião de especialistas ouvidos pelo R7, os investidores convencionais devem continuar aplicando seus recursos no Tesouro Direto, que não cobra taxa de administração, e em fundos que oferecem a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que assegura o reembolso de até R$ 250 mil em casos de falência da instituição financeira.

O economista Marcelo Billi, da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), explica que, à medida em que os juros estão em queda, é necessário ter uma maior atenção ao custo de cada uma das aplicações disponíveis no mercado.

— Quando as pessoas vão comprar uma geladeira ou um carro, elas pesquisam, vão em várias lojas, vêm vários modelos e comparam as características e condições do negócio. Na hora de escolher investimento, elas acabam não dedicando tanta energia e tempo para fazer essa comparação e pesquisar as melhores condições. Sempre foi importante fazer isso, mas neste cenário atual, é mais ainda.

Poupança
A queda de taxa básica de juros a um patamar inferior a 8,5% ao ano alterou a rentabilidade dos recursos aplicados na caderneta de poupança. O investimento, que pagava 0,5% ao mês, agora oferece rentabilidade equivalente a 70% da Selic. Hoje, esse valor fica na casa de 5,79% ao ano.

Cálculos do diretor-executivo de pesquisas econômicas da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade), Miguel José Ribeiro de Oliveira, apontam que, mesmo com a alteração, a poupança segue vantajosa em comparação aos fundos de investimento que têm taxas de administração superiores a 1% ao ano.

O professor de estratégia financeira do Ibmec-SP (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) Paulo Azevedo destaca que as aplicações na poupança ainda vão oferecer ganho em relação à inflação.

— Por mais que a Selic esteja caindo, a meta de inflação está abaixo do centro da meta. O governo pode se dar ao luxo de diminuir a Selic e isso não vai influenciar negativamente na última linha do investidor final.

Billi, por sua vez, orienta que o investidor que optar pela poupança deve ter atenção para manter o dinheiro na aplicação por um período maior do que um mês. Ao contrário, ele avalia que a caderneta se tornar uma “conta corrente”.

— A poupança não paga a rentabilidade antes do aniversário. Às vezes, as pessoas usam a poupança ao longo do mês e vão sacando os recursos. Se ela saca tudo ao longo dos 30 dias, ela não ganha rentabilidade nenhuma.


Fundos
No caso dos fundos de renda fixa, como CDB, LCI e LCA, a economista do portal de educação financeira Meu Bolso Feliz Marcela Kawauti alerta para a necessidade de calcular, além das taxas de administração, os outros custos da aplicação.

— É importante lembrar que ele vai pagar imposto de renda nesses fundos de renda fixa. Se você tem a Selic em 8,25% e vai pagar 27,5% de imposto de renda, vai pagar 6,8% e ainda sim vale a pena em relação à poupança. [...] Mas, vale lembrar que se o fundo de renda fixa tiver um rendimento um pouco abaixo da Selic, você começa a ter uma competição um pouco mais ferrenha com a poupança.

O diretor da Anefac observa que, considerando uma aplicação em CDB, o investidor teria que obter uma taxa de juros de cerca de 85% do CDI — títulos emitidos pelo banco — para atingir o mesmo ganho da poupança nova. Na avaliação de Oliveira, as aplicações em CDB’s pagam igualmente Imposto de Renda de acordo com o prazo de resgate do investimento.

Azevedo orienta que os investidores em busca de fundos atrelados ao CDI olhem para bancos "menos famosos" na tentativa de encontrar uma rentabilidade significativamente maior.

— Para a pessoa física convencional, o CDB de um banco de varejo costuma pagar 80% ou 85% do CDI. Agora, se você pegar um CDB de um banco médio, eles pagam 110% do CDI. É uma diferença relevante. [...] Por uma questão de comodidade até, os bancos maiores não oferecem taxas tão altas.

Tesouro Direto
Investir no Tesouro Direto significa emprestar seu dinheiro para o governo. Para isso, é possível escolher títulos pré-fixados, atrelados ao IPCA, e os ligados à Selic.

Kawauti recomenda que o investidor que vai escolher o Tesouro deve se perguntar antes o motivo pelo qual ele está guardando este recurso. Ela afirma que os papéis têm uma volatilidade muito grande e é possível não conquistar o rendimento desejado se fizer a escolha errada.

— O prazo do Tesouro depende daquilo que você quer fazer com aquele dinheiro. O prazo não vai mudar o rendimento anual, só o quando você vai precisar daquele dinheiro. [...] Se for investir no IPCA [Índice de Preços ao Consumidor Amplo], tem que levar até o vencimento. Se for investir no Tesouro Selic, pode tirar antes.

O professor de estratégia financeira do Ibmec-SP explica que existe uma "tendência natural" dos títulos do Tesouro pagarem uma remuneração maior conforme o maior tempo de resgate. De acordo com Azevedo, o ideal é sempre aguardar pelo vencimento do título para receber "exatamente aquilo que foi oferecido no momento da compra".

— Se a pessoa quer ter liquidez imediata ou de curto prazo, não é recomendável comprar um título público que vence em 2024. [...] Como existem efeitos do mercado que mudam o preço de compra e venda, se você passar pouco tempo com o título, pode ganhar muito ou perder muito.

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