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Entrevista

Petraglia afirma que o Brasil está 30 anos atrasado na indústria do futebol

Para o dirigente do Athletico-PR o modelo arcaico usado no Brasil respinga no projeto ambicioso que ele possui para o clube paranaense

Autor: Redação RIC Mais
Petraglia quer fazer o Athletico campeão mundial até o ano de 2024. (Foto: Gustavo Oliveira/Athletico Paranaense)
Petraglia quer fazer o Athletico campeão mundial até o ano de 2024. (Foto: Gustavo Oliveira/Athletico Paranaense)

Presidente do Conselho Deliberativo do Athletico-PR Mario Celso Petraglia, de 74 anos, criticou o modelo de gestão e legislação do futebol brasileiro durante entrevista concedida ao LANCE. Isso porque o modelo usado no Brasil, que respinga em um projeto ambicioso que ele possui para o clube paranaense: ser protagonista no cenário nacional e com o objetivo de ser campeão mundial até 2024.

No dia 11 de dezembro, um dia antes de ganhar o título no Campeonato Sul-Americano, Petraglia surpreendeu ao apresentar o novo escudo do Athletico-PR e ainda mudou a forma de escrever o nome do Clube, que passou a ter a grafia do ano de sua fundação, em 1924 (com a letra H). Mas o seu olho não é apenas no Furacão, onde é presidente do Conselho Deliberativo. Vai além.

Em pouco mais de 40 minutos de conversa com a reportagem do LANCE!, ocorrida em sua sala na Arena da Baixada horas antes do título da Copa Sul-Americana, Petraglia, entre um rabisco e outro em papéis durante suas respostas, mostrou sua marca: a de falar sobre todos os assuntos, criticar o modelo de divisão das cotas de TV e falta de uma visão mais empresarial dos dirigentes, os problemas da legislação do futebol brasileiro, e a coragem de defender suas convicções sem medo do que até mesmo sua própria torcida vai pensar sobre as decisões.

Qual a primeira palavra que vem a sua cabeça quando o senhor pensa no Athletico-PR em sua vida?

Pergunta difícil. Mas se eu tiver que escolher uma palavra seria legado. Creio que vou deixar para o futuro é o cenário de que tudo é possível ser realizado. O autor morre e a obra permanece. Então neste sentido acho que o legado é uma palavra que define bem esta questão.

Já que o senhor falou em legado, qual acredita que foi seu maior feito na administração do Athletico-PR e que será lembrado por gerações futuras?

Olha não estou preocupado com isso. Na realidade a minha preocupação é retribuir com algo para este estado que me acolheu, uma vez que sou gaúcho. E nós temos uma dificuldade muito grande por ser um estado relativamente novo. Por isso creio que esse fato de ser possível se realizar grandes projetos aqui seja o maior legado que eu posso deixar.

O Athletico-PR tem uma estrutura que poucos no Brasil possuem atualmente. Na sua avaliação, o clube não tem o devido crédito como um dos principais do país por não estar no eixo RJ-SP, ou mesmo Rio Grande do Sul e Minas?

Os nossos problemas ou soluções são baseadas na nossa cultura. A nossa história se baseia no eixo Rio-São Paulo, na questão política e econômica. Na época da República do Café com Leite Minas também teve seu crescimento, e o Rio Grande do Sul é um país a parte. Quando quer é só gaúcho, quando convém é brasileiro. O Paraná, no meio deste cenário todo, não tem essa tradição e reconhecimento em todos os aspectos. Não só no esporte. Acredito que o projeto que temos feito no Athletico trará, em algum momento, o devido reconhecimento.

A conquista da Sul-Americana pode antecipar o planejamento do clube em ser campeão Mundial antes da meta estabelecida (2024)?

Não diria antecipar. Essa conquista confirma o andamento nosso projeto. No futebol não é possível ser campeão todo ano. Mas estar entre os protagonistas te permite ficar mais perto dos objetivos traçados. É isso que estamos buscando e vamos acabar chegando aos títulos. É uma questão de probabilidade. Se você está sempre buscando os primeiros lugares, vai acabar ganhando.

Qual o atual cenário financeiro do seu clube em comparação a outras grandes equipes do cenário nacional?

Nosso histórico mostra o predomínio de duas instituições que dominam o futebol brasileiro há décadas, no caso a TV Globo e a CBF. Existe esse hábito da Globo em transmitir todos os jogos realizados no Brasil, com os horários que ela estabelece, e que nem sempre os clubes estão de acordo. E a CBF, por sua vez, privilegiando a seleção para vender sua marca e sua imagem, ao invés de também ajudar os clubes nessa internacionalização. Além disso, existe esse abismo na divisão de cotas de tv. Clubes como Flamengo e Corinthians possuem um valor infinitamente maior em relação aos clubes emergentes, que é onde o Athletico se encontra neste momento. Então montamos o projeto dentro das nossas possibilidades de caixa. Vamos terminar o ano como o 12º faturamento do Brasil, e somos o sétimo de performance técnico. Precisamos buscar o equilíbrio nesta divisão de cotas. Quem tem mais caixa, possui maiores possibilidades de alcançar os títulos, pois contrata os melhores jogadores.

A situação financeira de grande parte dos clubes do cenário brasileiro é de dependência de receitas, como as cotas de tv. Diante deste fato, falta coragem para bater de frente com os desejos da CBF e da própria Rede Globo?

Isso é um efeito no tocante a falta de união em prol da causa. Se não houver uma mudança no modelo de gestão dos clubes, ou seja, se tornar sociedades com fins lucrativos, empresárias, fica difícil andar para frente. Atualmente ainda se tem, em muitos clubes, aquela visão amadora do passado, sem fins lucrativos, onde é difícil se emplacar projetos devidos a alta rotatividade.

Por que a distância do futebol brasileiro para os grandes centros só aumenta, apesar de existir um avanço lento em curso no cenário nacional?

É uma distância abissal. O Barcelona, por exemplo, tem uma expectativa de receita em 2018 de um bilhão de dólares. Independente da diferença nos valores das moedas, os atletas são negociados nas mais fortes. Então se o Flamengo vende alguém por 35 milhões de euros, para os europeus o valor é esse. Para nós, é algo quatro vezes maior. Se não buscar profissionalizar o futebol, valorizar a nossa indústria, vamos continuar a ser apenas fornecedores de talentos. E nossos artistas indo para outros centros.

Na sua avaliação , por que não se consegue união dos maiores clubes em torno de uma pauta de interesses comuns , que são muitos , e, com isso, uma liga de fato seja criada?

Os interesses são comuns. Os projetos, planejamentos e dificuldades dos clubes, tanto nacional, como internacional, são os mesmos. A indústria do futebol é uma só. A questão é que existe um conflito de interesses muito fortes entre os dirigentes. Entram, não tem responsabilidade em dar continuidade a projetos anteriores, seu foco e dar resposta a sua vaidade, ao torcedor, conselho... E isso leva a esse cenário atual de não união que encontramos hoje.

Para o senhor, o modelo de propriedade dos clubes brasileiros , associativo , é virtuoso ?

Não tenho dúvidas. Existem exceções, como temos na Europa, como o Barcelona e o Real Madrid. O Brasil é o maior país no mundo com dedicação total de sua população ao futebol. A única forma de valorizarmos o nosso produto é ter parceiros estratégicos, principalmente do ponto de vista econômico, para que isso cresça rapidamente. Se formos esperar o crescimento vegetativo, onde os clubes devem R$ 5 ou 6 bilhões ao governo, não vejo como nos equivalermos aos grandes centros do futebol em menos de três décadas.

Por qual motivo não há clubes grandes como "sociedades empresárias"?

A nossa legislação é frágil. A Lei Pelé criou a questão da sociedade empresárias dos clubes, mas equiparou a tributação de qualquer outra atividade. E o futebol não pode ser avaliado desta forma. Sem falar na falta de isonomia, ou seja, você se transforma em sociedade anônima e traz um parceiro sofre tributação, o outro clube que não fizer isso fica isento. Então um potencial investidor não tem segurança jurídica, política e de mercado. Posso te dizer que estamos na Idade da Pedra em comparação ao resto do mundo no tocante a indústria do futebol.

A crise no país faz com que o próximo governo coloque algumas pautas mais prioritárias a frente do esporte neste primeiro momento. De que maneira, então, será possível uma fiscalização e, principalmente, aplicações de punições a agremiações que não cumprirem as regras do Profut, por exemplo?

O governo socorreu os clubes recentemente, no alongamento de prazos de pagamento, redução de multas e juros. Se isso não fosse feito os clubes iriam fechar. Então houve um comprometimento das instituições em cumprir. Mas se não for modificado, como falei, o modelo do nosso futebol, mais uma vez não existirá o cumprimento do combinado. Só como exemplo estamos jogando o Brasileiro deste ano sob uma liminar, uma vez que nem todos os clubes teriam as suas CNDs em sua posse.

Qual a chance de um clube que não cumpra as exigências do Profut ser rebaixado?

Se essa exigência for mantida, ou seja, caçar essa necessidade do clube de só puder atuar com as CNDs em dia, acredito que poderá acontecer. Ouço falar que existem grandes clubes que não terão condições de se manter na Primeira Divisão diante desta ótica. Não tenho informações sobre o próximo governo, no tocante ao rigor diante desta questão.

Como vê a atuação da APfut neste cenário?

Não tenho muitas informações. Infelizmente a crise política que vivemos no Brasil faz com que o próximo governo tenha algumas pautas, como as reformas, como prioridade em relação ao esporte. Mas os clubes vão trabalhar para que a APfut funcione, bem como a mudança na legislação.

Na sua avaliação, o Athletico-PR é, no futebol brasileiro, o único clube verdadeiramente de vanguarda?

Esse termo para mim é amplo. Diria que hoje temos vários que possuem projetos. O Flamengo, por exemplo, tinha a meta de resolver sua questão financeira nos últimos seis anos e conseguiu. Olha, te digo que no Brasil existem poucos clubes com um verdadeiro projeto. O Athletico é um deles. Os clubes, em sua maioria, estão mais preocupados em resolver o seu passado do que planejar o futuro.

Além do senhor, quem no cenário nacional crê ser um dirigente combativo com as regras vigentes na atualidade?

Infelizmente temos poucos empresários como dirigentes no futebol brasileiro. Sem demérito nenhum, geralmente os profissionais vem do setor público, e não tem muito a visão empresarial de mercado e com o intuito de contribuir para a indústria do esporte. Por isso há muita divergência quando ocorrem as reuniões entre os dirigentes. Me criticam por pensar no futebol moderno e com uma cabeça mais empresarial. E existe essa coisa cultural no Brasil de que tudo precisa se justificar ao torcedor. Não cultuamos o esporte, e sim a vitória. Só o tempo vai ajudar a mudar essa cabeça.

O senhor disse durante a cerimônia de lançamento do novo escudo do Athletico que a Globo vai deixar de transmitir os Estaduais em 2020. Na sua visão é uma competição fadada a extinção? E como imaginar um "suporte" aos clubes regionais que dependem muitas vezes deste torneio?

Já acabou. Isso está na UTI há muitos anos. Como falei, essa cultura de satisfação ao torcedor está errada. Ele não entende o movimento do clube em um primeiro momento. O Athletico não prioriza o curto prazo. Tomamos medidas em um momento antipático, há seis anos, de não priorizar o Estadual, por entender que é um produto que não tem valor para nós ou atletas, e sim para formação de atletas. Agora está todo mundo entendendo. Tivemos coragem.

Como o senhor avalia a utilização de atletas da base no elenco principal do Athletico? Qual a importância de ter uma base forte quando é difícil competir no tocante de contratações?

Isso é histórico e tradição nossa. Não temos receitas e não há outro caminho de sobrevivência. Um clube que não tem faturamento de R$ 600 milhões não sobrevive se não formar o atleta. Até mesmo para futuramente fazer um movimento no tocante a contratações. A nossa maior dificuldade não é mais formar, e sim mantê-lo. Queremos fazer caixa para continuar com os nossos atletas para que eles não tenham a necessidade de ir para Europa ganhar mais. Essa é nossa preocupação atual.

O senhor é considerado um dirigente de personalidade forte, ideias inovadoras, atitudes corajosas e, por conta disso, gera antipatia entre muitos torcedores do Athletico. Como lida com isso?

Aprendi com o Boni, que ajudou a Globo a se transformar no que é, a seguinte frase: "se dermos ouvidos a imbecis, seremos um deles". Realmente quando ouço algum absurdo, não dou bola. A compreensão do torcedor está defasada. Pegue o exemplo da nossa nova identidade. Vai levar um tempo para ele entender este movimento. É difícil a compreensão dele em relação aquilo que nós planejamos para o sucesso do clube. As coisas vão acontecendo e no caminho ajustes são feitos.

Qual o desejo do senhor para o seu clube e o futebol brasileiro em 2019?

O Athletico não é uma ilha. Nós batemos no teto. É preciso mudanças no nosso esporte. Estou aqui para ajudar neste sentido da evolução. E vou tentar. Posso não conseguir, mas pelo menos terei a certeza que tentei. Espero que o novo governo veja esse trabalho e colabore no tocante a legislação. Para isso, quero ajudar no crescimento do futebol brasileiro, que na minha opinião é o melhor do mundo. Minha vontade é deixar um legado não só para o Athletico, mas para o esporte como um todo. O Brasil, hoje, está 30 anos atrás na indústria do futebol. E não na questão técnica.

*Com informações do Lance, via R7

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